
Imagem: Hellerhoff / Wikimedia Commons (CC BY-SA 3.0)
Fratura do Escafoide: Sintomas, Diagnóstico e Tratamento
A fratura do escafoide — do osso "em forma de barco" que liga as duas fileiras de ossos do punho — é a fratura mais "enganosa" do punho: a dor costuma ser discreta no início, e a radiografia inicial pode ser normal, fazendo com que o paciente volte às atividades achando que foi "uma entorse". O problema é que o escafoide tem um suprimento sanguíneo particular, que torna a fratura propensa a complicações (pseudoartrose, necrose) quando não é tratada adequadamente.
O que é o escafoide?
O punho tem oito ossos pequenos (carpo), dispostos em duas fileiras. O escafoide (do grego "em forma de barco") ocupa o lado do polegar, na fileira proximal, e cumpre um papel mecânico central: ele liga a primeira fileira de ossos do carpo à segunda, participando diretamente de toda a transmissão de força entre o punho e a mão. É um dos ossos mais solicitados mecanicamente do punho, e sua fratura é a mais comum entre as fraturas dos carpos. Por estar na linha de carga, uma fratura do escafoide mal tratada desorganiza a mecânica de toda a articulação — os fragmentos se afastam, o punho instala-se em instabilidade, e, com o tempo, surgem as complicações que motivam a atenção especial que essa fratura exige: a pseudoartrose (não consolidação) e a necrose avascular do fragmento.
Como acontece a fratura do escafoide?
O mecanismo clássico é a queda com a mão estendida, espalmada sobre o solo — a mesma que fratura o rádio distal —, ou o golpe de objeto pesado contra a mão em dorsiflexão. É a fratura típica do goleiro do futsal, que amortece a bola contra o chão com a mão aberta; mas, como as quedas de baixa energia, qualquer queda do próprio peso sobre a mão estendida pode produzi-la, em qualquer idade. Em pessoas com ossos menos densos (idosos, mulheres pós-menopausa com osteoporose), traumas mínimos bastam. O detalhe que torna a fratura traiçoeira: quando o trauma é de baixa energia, o paciente costuma referir apenas uma dor discreta no dorso do punho, do lado do polegar — na chamada vala anatômica (o "valinho" na base do polegar), ou com dor à compressão longitudinal do polegar (empurrar o polegar para baixo, ao longo do eixo do osso) — sintomas que, na fase inicial, têm sensibilidade próxima de 100% para a fratura, mas que tendem a desaparecer espontaneamente em poucos dias, mesmo com a fratura presente. É aí que mora o perigo: o paciente volta a andar, a dor some, e a fratura — não tratada — inicia o curso das complicações.
Sintomas
Os sinais e sintomas clássicos da fratura do escafoide:
- Dor discreta no dorso do punho, do lado do polegar (região da vala anatômica)
- Dor à compressão longitudinal do polegar (empurrar o dedo para baixo, ao longo do eixo do osso)
- Dor ao apoiar o peso do corpo sobre a mão ou ao girar o punho
- Inchaço discreto, sem deformidade aparente — ao contrário da fratura de Colles, o punho não fica "deformado"
- Dor que tende a melhorar nos primeiros dias, mesmo com a fratura não tratada — o sinal de alerta mais perigoso
- Dificuldade para segurar com força e para rotação do antebraço, que vai se instalando com o tempo
A combinação "queda com a mão estendida + dor na vala anatômica + raio-x inicial normal" é a tríade clássica da fratura oculta do escafoide — e é exatamente o quadro que exige a investigação por imagem complementar (tomografia ou ressonância), ou o seguimento radiográfico sistemático, e não a alta com o diagnóstico de entorse.
Por que o escafoide é um osso "especial"?
Dois motivos tornam a fratura do escafoide a mais temida entre as fraturas do punho. O primeiro é vascular: o sangue chega ao escafoide, predominantemente, pela sua porção distal (a mais próxima do polegar) e caminha, por dentro do osso, em direção à porção proximal (a mais próxima do rádio). Quando a fratura separa os dois fragmentos, o fragmento proximal pode ficar sem irrigação — e, sem sangue, o osso morre: é a necrose avascular. O risco depende da localização da fratura: fraturas do terço proximal têm a maior incidência de necrose, as do terço médio têm risco moderado, e as do terço distal raramente a desenvolvem. O segundo motivo é mecânico: com a fratura, instala-se instabilidade do carpo — o fragmento proximal (junto ao rádio) desvia-se com o semilunar, em direção ao dorso da mão, enquanto o fragmento distal (junto ao trapezio e trapezoide) gira para o lado da palma. O afastamento dos dois fragmentos impede a consolidação natural, e pode instalar a pseudoartrose (a "falsa articulação") — um estado em que, no lugar de osso, forma-se uma articulação fibrosa dolorosa, com desgaste precoce do punho ao redor. Por tudo isso, o princípio do tratamento é direto: manter os fragmentos unidos, o tempo suficiente, até que consolidem de verdade.
Diagnóstico
O diagnóstico combina a clínica (o mecanismo, a dor na vala anatômica, a dor à compressão do polegar) e a investigação por imagem — e é aqui que a paciência do paciente e do médico importam. A radiografia inicial pode ser normal, mesmo com fratura presente, porque a linha da fratura do escafoide não se mostra bem nas projeções habituais. Por isso, o padrão quando a suspeita clínica persiste é: solicitar tomografia computadorizada (que mostra com nitidez a linha da fratura e o grau de desvio dos fragmentos) ou ressonância magnética (que detecta edema ósseo e microfraturas ainda não visíveis na tomografia) para detecção imediata; ou, quando esses exames não estão disponíveis, o seguimento radiográfico sistemático — com novas radiografias às 3 e 6 semanas, quando a fratura, se presente, costuma se manifestar com reabsorção dos bordos e desvio dos fragmentos. Após o diagnóstico, as séries de radiografias continuam acompanhando a consolidação, garantindo que o alinhamento se mantenha durante o tratamento (gesso ou pós-operatório). A combinação dos exames define a localização da fratura (terço proximal, médio, distal), o grau de desvio e, em conjunto, o plano terapêutico.
Tratamento
O tratamento depende do padrão da fratura: deslocada ou não, e da localização. Nas fraturas estáveis, sem desvio (em linha, sem separação dos fragmentos), o tratamento clássico é o conservador: imobilização com gesso (tala de punho e polegar, que mantém a vala anatômica protegida) por um período que varia conforme a localização — em média, de 6 a 12 semanas, com radiografias seriadas para acompanhar a consolidação e garantir que o fragmento não se desloque. Nas fraturas com desvio, com fragmentos separados, ou quando se deseja encurtar o tempo de imobilização, a via cirúrgica é a opção: o reparo com parafuso (tipicamente, um parafuso de compressão, inserido por via percutânea, através da pele, sem abrir a ferida em T), que comprime os fragmentos um contra o outro, mantendo-os unidos enquanto o osso consolida. Em fraturas do terço proximal, com risco de necrose, o parafuso tem o papel adicional de comprimir o fragmento isquêmico contra o fragmento irrigado, maximizando a chance de revascularização. A anestesia pode ser regional (o braço, "dormindo") ou geral, e o procedimento é ambulatorial, com alta no mesmo dia. Nos casos em que a pseudoartrose já se instalou (fratura que não consolidou), o tratamento é cirúrgico de reconstrução — limpeza do sítio da "articulação" falsa, enxerto ósseo e fixação —, descrito em detalhe na página sobre pseudoartrose do escafoide.
Recuperação
No tratamento com gesso, a imobilização dura, em média, de 6 a 12 semanas, com radiografias de controle nesse período; após a consolidação, o gesso é removido e a reabilitação dirigida — com exercícios de mobilidade do punho e do polegar, seguidos de fortalecimento progressivo — leva a função de volta, em semanas a alguns meses. No tratamento com parafuso, a proteção inicial é mais curta (o parafuso mantém a compressão), e a reabilitação começa mais cedo, com o retorno às atividades gradual, conforme a força e a amplitude voltam. O retorno ao trabalho depende da natureza da tarefa; o desporto, especialmente o que envolve carga sobre a mão (esportes de impacto, esportes de raquete, esportes de contato), volta de forma progressiva, com liberação do médico, tipicamente após a consolidação completa. A consolidação do escafoide, por ser um osso com vascularização precária, costuma ser mais lenta que a de outras fraturas — e o acompanhamento por imagem até a consolidação radiográfica é parte do plano, para garantir que não se instale a pseudoartrose.
Possíveis complicações
As duas complicações clássicas, e as que mais motivam a atenção à fratura do escafoide, são: a pseudoartrose (não consolidação), que se instala quando os fragmentos se separam e não são mantidos unidos — o resultado é uma "articulação" fibrosa dolorosa, com perda de força e, com o tempo, desgaste das articulações do punho ao redor (artrite do carpo); e a necrose avascular do fragmento proximal, que decorre da perda do suprimento sanguíneo, com maior risco nas fraturas do terço proximal — e que, quando extensa, pode levar à colapso do fragmento e à instabilidade do carpo. Outras complicações possíveis, menos frequentes, incluem: perda de alinhamento durante o tratamento (que pode exigir novo tratamento), rigidez do punho, dor crônica e, nos casos de pseudoartrose estabelecida, o "colapso do escafoide" — uma deformidade que, sem tratamento, progride para artrose do punho. A boa notícia é que ambas as complicações principais são evitáveis quando a fratura é diagnosticada a tempo e tratada com o plano adequado — e, quando se instalam, têm tratamento cirúrgico (enxerto, fixação, e, nos casos avançados, substituição do carpo proximal). A lição do escafoide é a mesma: uma dor discreta no punho, após uma queda, não é motivo para tranquilidade — é motivo para investigar.
Quando procurar um especialista
Procure avaliação de um cirurgião de mão quando, após uma queda com a mão estendida (ou um golpe na mão), houver dor na vala anatômica do punho (o "valinho" da base do polegar) ou dor ao comprimir o polegar ao longo do eixo — especialmente se a radiografia inicial for normal, que é exatamente o quadro da fratura oculta. O tempo importa: quanto mais cedo a fratura for identificada e mantida unida (gesso ou parafuso), menores as chances de pseudoartrose e de necrose. E, se a dor no punho, após a queda, persiste além de uma a duas semanas, o caminho é a investigação por tomografia ou ressonância, não a tranquilidade.
Atendimento em Campinas
Em Campinas, o Dr. William C. Villani — cirurgião de mão e microcirurgião — avalia e trata fraturas do escafoide em dois consultórios: Hospital e Maternidade Madre Theodora (Parque das Universidades) e Instituto Affonso Ferreira (Jardim das Paineiras), com atendimento de urgência para trauma, investigação por tomografia e ressonância, imobilização dirigida e, quando indicado, osteossíntese com parafuso percutâneo.
Veja os endereços, telefones e como agendar na página de atendimento em Campinas.
Perguntas frequentes
O raio-x normal exclui a fratura do escafoide?
Não. A fratura do escafoide é, justamente, a fratura mais comumente "oculta" no raio-x inicial: a linha da fratura não se mostra bem nas projeções habituais, e a dor discreta pode levar o paciente e o médico a diagnosticar entorse. Por isso, quando o mecanismo (queda com a mão estendida) e a dor na vala anatômica persistem, o padrão é investigar com tomografia ou ressonância, ou, na ausência dessas, repetir as radiografias às 3 e 6 semanas — quando a fratura, se presente, se revela com o desvio dos fragmentos.
Qual a diferença entre gesso e parafuso?
O gesso (imobilização) é o tratamento clássico das fraturas estáveis, sem desvio: mantém o punho e o polegar em posição neutra por 6 a 12 semanas, o tempo em que o osso consolida — com o risco, porém, de o fragmento se deslocar durante esse período. O parafuso (osteossíntese percutânea) é indicado nas fraturas com desvio, com fragmentos separados, ou quando se quer encurtar a imobilização: o parafuso comprime os fragmentos um contra o outro, mantendo-os unidos desde o primeiro dia, e a recuperação da função começa mais cedo. A escolha entre os dois caminhos depende do padrão da fratura no exame de imagem, e o cirurgião de mão orienta, com o paciente, qual via oferece o melhor equilíbrio entre segurança e tempo.
O que é a necrose avascular do escafoide?
É a morte do osso por falta de sangue. O escafoide é irrigado, predominantemente, pela sua extremidade distal (perto do polegar); quando a fratura separa os fragmentos, a porção proximal (perto do rádio) pode ficar sem irrigação, e as células ósseas morrem. O risco depende da localização da fratura: o terço proximal tem a maior incidência, o terço médio, risco moderado, e o terço distal, raramente desenvolve necrose. Por isso, nas fraturas do terço proximal, o tratamento com parafuso — que comprime o fragmento isquêmico contra o irrigado, maximizando a chance de revascularização — é frequentemente preferido ao gesso.
O que é pseudoartrose, e como se evita?
Pseudoartrose (ou "falsa articulação") é o estado em que a fratura, em vez de consolidar, forma uma articulação fibrosa entre os dois fragmentos — que dói, limita a força e, com o tempo, desgasta as articulações vizinhas. Ela se instala quando os fragmentos não são mantidos unidos (deslocamento durante o gesso, ou afastamento que impede o contato). A prevenção é direta: diagnóstico precoce (não tratar como entorse), alinhamento correto (gesso adequado, ou parafuso de compressão quando indicado) e seguimento radiográfico até a consolidação. Quando a pseudoartrose já se instalou, o tratamento é cirúrgico de reconstrução, com enxerto ósseo.
Quanto tempo dura o gesso?
Em média, de 6 a 12 semanas, conforme a localização da fratura e a resposta à consolidação — com radiografias de controle nesse período para garantir que o alinhamento se mantenha. A imobilização protege a vala anatômica (o "valinho" da base do polegar), onde a dor está, e mantém os fragmentos em contato. Após a consolidação, a reabilitação dirigida leva a função de volta, em semanas a alguns meses, com o retorno ao trabalho e ao esporte gradual, conforme a força e a amplitude retornam.
Posso continuar dirigindo ou trabalhando com a mão lesionada?
Depende da fase. Durante a imobilização, a mão lesionada não deve carregar peso nem ser usada para força — o que, para quem dirige com a mão do lado da fratura, geralmente significa evitar o volante até a remoção do gesso (e, mesmo depois, até a força e a amplitude estarem recuperadas). No trabalho, a adaptação é individual: tarefas administrativas podem ser retomadas com a tela, enquanto trabalhos de força, com carga sobre a mão, exigem a consolidação e a reabilitação mais avançadas. O cirurgião define, a cada etapa, o que é compatível com a fase do tratamento.
Depois de tratada, a fratura do escafoide volta a doer?
Na grande maioria dos casos, não: quando a fratura consolida com o alinhamento correto, a dor se resolve e a função retorna. Dor persistente após o tratamento, porém, merece investigação: pode ser rigidez (responde à reabilitação), irritação de estruturas vizinhas, ou, nos casos de pseudoartrose ou necrose não reconhecidas, a manifestação tardia de uma complicação — que, identificada a tempo, tem tratamento. Por isso, o seguimento com o cirurgião, com exame clínico e, quando indicado, novo exame de imagem, faz parte do plano após a alta.