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Entorse ou fratura no punho: como distinguir e quando fazer exame de imagem
Dor no punho depois de uma queda com a mão estendida é uma das queixas mais comuns da ortopedia — e, ao mesmo tempo, uma das mais traiçoeiras. A mesma queda que quebra o rádio distal (o osso do punho) pode, em outro corpo, estirar apenas os ligamentos. Para o paciente, os primeiros minutos se parecem muito: dor, inchaço, medo de mover. A diferença entre entorse e fratura, porém, muda completamente o tratamento — e, no punho, existe uma fratura em particular, a do escafoide, que é a grande vilã dos diagnósticos perdidos.
O que é uma entorse do punho, e o que é uma fratura
Entorse é a lesão dos ligamentos (as "correntes" que seguram os ossos do punho em suas articulações), sem fratura do osso. Fratura é a ruptura do próprio osso — no punho, o mais comum é o rádio distal (o osso da "borda" do punho, do lado do indicador), que responde por uma fatia enorme das fraturas do corpo: estima-se que 25% a 50% de todas as fraturas do esqueleto acontecem no punho distal, com pico em mulheres após os 50 anos (queda do próprio nível, por vezes com ossos frágeis) e em jovens no esporte (moto, esqui, skate, quadra). As duas lesões podem, inclusive, acontecer juntas: a mesma força que estira os ligamentos pode fraturar o osso ao lado.
Os sinais que separam entorse de fratura
No exame, o médico procura pontos de sensibilidade específicos, que indicam qual estrutura foi lesionada. Para o paciente, os sinais mais úteis para desconfiar de fratura são:
- Dor intensa e pontual na base do polegar (o "espaço anatômico" do escafoide) — o padrão clássico da fratura do escafoide
- Deformidade visível do punho: o "punho em forquilha" (o dorso do punho desvia para cima, como uma forquilha de jantar — típico da fratura de Colles) ou o punho em angulação para baixo (fratura de Smith, mais rara)
- Incapacidade de apoiar o peso do corpo no braço sem dor aguda
- Dor que piora ao girar o punho para cima (rotação) ou para baixo (flexão), com sensação de "grão de areia"
- Inchaço que persiste ou piora nas primeiras 48h, sem melhorar com gelo e repouso
- Formigamento ou dormência nos dedos (pode indicar compressão do nervo mediano, mais comum quando há fratura com deslocamento)
Nenhum desses sinais é definitivo por si só: existe entorse grave que dói como fratura, e fratura leve que parece torção. É por isso que a dúvida se resolve no exame de imagem, não na "intuição".
Por que a radiografia é o primeiro passo
O padrão-ouro inicial para distinguir entorse de fratura no punho é a radiografia em duas projeções (anteposterior e perfil). Ela identifica a grande maioria das fraturas do punho distal em minutos. O detalhe importante: a radiografia normal não descarta 100% a fratura — a fratura do escafoide, por exemplo, pode não aparecer nas primeiras 48h, e é o caso clássico de paciente que sai do pronto-socorro com "entorse" e volta semanas depois, quando a fratura finalmente aparece na imagem. Por isso, quando a dor persiste, o passo seguinte é a reavaliação: nova radiografia em 10 a 14 dias, ou ressonância magnética, que mostra a fratura imediatamente (e também lesões ligamentares, como a do ligamento escafolunar, que a radiografia não vê).
O que tratar primeiro: o tempo importa nos dois casos
Em ambos os quadros, o tempo de espera entre a lesão e o tratamento adequado é o fator que mais prejudica o resultado. Na fratura, cada dia de "aguentar" aumenta o edema, dificulta o reposicionamento e, em fraturas com deslocamento, encurta a janela em que o tratamento sem cirurgia é possível. Na entorse, o mesmo vale: ligamentos lesionados que ficam sem imobilização adequada tendem a ficar "frouxos", com instabilidade crônica do punho e dor persistente — a causa mais comum de punho dolorido crônico em esportistas. A regra prática dos primeiros dias é a mesma nos dois casos: gelo (envolvido em pano, 15–20 min, várias vezes ao dia), repouso relativo (evitar apoiar peso, movimentos bruscos), e avaliação médica dentro de 1 a 2 dias — não em "duas semanas, para ver se melhora".
Tratamento da entorse: do repouso à reabilitação
A imobilização (tala ou gesso) dura de 3 a 6 semanas, conforme a gravidade da lesão ligamentar, seguida de reabilitação para devolver a amplitude e a força do punho. Em entorses mais leves, a imobilização pode ser mais curta, com proteção funcional e exercícios precoces. O objetivo do tratamento conservador é o mesmo do da fratura: devolver a função do punho, com a menor rigidez possível. O que separa um resultado bom de um ruim, na entorse crônica, é o diagnóstico precoce da lesão ligamentar — sem ele, o punho pode ficar com "jogo" anormal, dor ao esforço e, com o tempo, artrose precoce.
Tratamento da fratura do punho: gesso ou cirurgia
A fratura do rádio distal se divide, na prática, em dois grandes grupos. O primeiro, estável e bem alinhado, é tratado com gesso (ou tala rígida) por cerca de 6 semanas, com radiografias de controle para garantir que o osso não se "desalinhou" enquanto consolida. O segundo, com deslocamento, angulação além dos limites aceitos, fratura da superfície articular ou encurtamento do rádio, costuma exigir cirurgia: reposicionamento da fratura (com ou sem aperto de fragmentos) e fixação com placa e parafusos, ou com pinos, em procedimento que pode ser ambulatorial. O critério que o médico usa para decidir é, em resumo: o osso está alinhado o suficiente para consolidar "no lugar"? Se sim, gesso. Se não, cirurgia — e, nas fraturas com destruição articular, a cirurgia precoce costuma permitir mobilização mais rápida e melhor função final.
O escafoide: a fratura que "finge" ser entorse
A fratura do escafoide (o osso em forma de barquinho, logo abaixo da base do polegar) é a mais comum entre os ossos do carpo e o protótipo da fratura perdida: a dor é real, mas a radiografia inicial pode ser normal, e o paciente volta para casa com o diagnóstico de "entorse". O problema é que o escafoide tem um suprimento sanguíneo delicado (o sangue entra pela porção distal e sobe): sem imobilização adequada, a fratura pode evoluir para pseudoartrose (não consolida) ou até para perda de viabilidade do fragmento (necrose), com risco de artrose do punho. Por isso, dor persistente na base do polegar após uma queda — mesmo com radiografia "negativa" — é indicação clássica de reavaliação com novo exame de imagem (radiografia em 2 semanas ou ressonância).
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Perguntas frequentes
Uma radiografia "negativa" descarta a fratura?
Na grande maioria dos casos, sim. Mas existe uma exceção clássica: a fratura do escafoide, que pode não aparecer nas primeiras 48h. Por isso, se a dor na base do polegar persiste dias depois da queda, o padrão é repetir a radiografia em 10 a 14 dias ou fazer uma ressonância magnética, que mostra a fratura imediatamente.
Entorse no punho precisa de tala?
Depende da gravidade. Entorses leves (estiramento leve dos ligamentos) podem se tratar com repouso relativo, gelo e anti-inflamatórios, com proteção funcional. Entorses moderadas e graves (ruptura parcial ou completa de ligamentos importantes, como o escafolunar) exigem imobilização por 3 a 6 semanas, seguida de reabilitação, para evitar instabilidade crônica do punho.
Quanto tempo fica o gesso na fratura do punho?
O padrão é 6 semanas, com radiografias de controle (geralmente por volta de 10–15 dias e 30–40 dias) para conferir o alinhamento. A remoção só acontece com avaliação médica, após confirmar a consolidação. Nas fraturas do escafoide, o tempo pode ser bem maior, de 3 a 6 meses.
Punho "estalando" e com dor leve é entorse ou fratura?
O "estalo" do punho, sem dor aguda, sem trauma e sem inchaço, é na grande maioria das vezes fisiológico (ar na articulação, tendões passando) e não indica fratura. O que muda o quadro é o contexto: se o estalo veio acompanhado de dor intensa, inchaço e limitação após um trauma, é para avaliar. Punho que estala e dói ao esforço, sem trauma, pode ser lesão ligamentar ou desgaste articular — também para avaliação, mas sem urgência.
Preciso de cirurgia para uma entorse grave do punho?
Não necessariamente. A maioria das entorses, inclusive as graves, se trata com imobilização e reabilitação. A cirurgia entra quando há instabilidade persistente apesar do tratamento conservador, lesões ligamentares que precisam de reparo direto, ou associação com fraturas instáveis. A decisão é individual, baseada no exame físico, na imagem e na resposta ao tratamento inicial.
Tem dúvidas sobre o seu caso?
As informações deste blog têm caráter educativo e não substituem a avaliação médica. Se você tem dor, inchaço, perda de força ou dificuldade para mover os dedos, agende uma avaliação com o Dr. William C. Villani.